[Entrevista]: O protagonismo do RH na saúde do colaborador

Leyla Nascimento detalha os desafios do setor e as tendências que estão sendo antecipadas


As incertezas repentinas trazidas pela pandemia transformaram a rotina dos trabalhadores. Além de mudanças no modo de trabalho, profissionais de todos os segmentos tiveram que aprender a lidar com angústias e medos. Nesse cenário em que a importância da saúde se mostrou ainda mais essencial nas organizações, a área de Recursos Humanos ganhou uma importância sem precedentes.

O protagonismo do setor, avalia Leyla Nascimento, vice-Presidente de Relações Internacionais da ABRH Brasil, não ocorreu apenas em território nacional. “Assim que a pandemia surgiu, as empresas formaram comitês de gestão de crise. E muitos desses comitês foram liderados pelo RH. É muito importante o que essa área fez mundialmente”, destaca.

Leyla tem autoridade para falar do setor em níveis globais. De 2018 a 2020, ela foi presidente da WFPMA – World Federation of People Management, que é a Federação Mundial do RH que representa mais de 90 países. Leyla foi a primeira mulher a ocupar o cargo. Em entrevista exclusiva para o Informativo, a CEO do Instituto Capacitare, fala sobre os desafios e as tendências do setor.

Nesse momento de pandemia, quais você considera que sejam os principais desafios dos profissionais de RH?

Acho que o maior desafio foi vencer todas as barreiras que surgiram principalmente referente ao bem-estar das pessoas em casa. Surgiram também algumas dificuldades de legislação, pois nós ainda não tínhamos essa prática total de home office. Então os desafios maiores foram lidar com a insegurança dos colaboradores, acionar a área de Tecnologia de Informação para saber se as pessoas teriam condição de trabalhar em casa e acompanhar todas as medidas do governo com relação às legislações que não existiam para isso. Imediatamente, assim que a pandemia surgiu, as empresas formaram comitês de gestão de crise. E muitos desses comitês foram liderados pelo RH. É muito importante o que essa área fez mundialmente: foi um trabalho fantástico de protagonismo nas ações.

Em se tratando especialmente da saúde mental dos colaboradores, como o RH pode ajudar nesse tema em tempos de tanta incerteza?

O primeiro de tudo é ouvir. Dar uma atenção maior às pessoas. Porque dois pontos especialmente têm tido relação com o impacto da pandemia nas pessoas. Um é o impacto da vida, as pessoas precisavam sobreviver, e essa questão de ameaça, como ficou muito claro na pandemia, gerou um impacto muito grande nas pessoas. E não era só o colaborador da empresa, mas era o colaborador e sua família, então havia uma preocupação não só com uma pessoa, mas com o contexto familiar daquelas pessoas. O RH teve todo um trabalho de se aproximar cada vez mais, realizar uma constância de ações no contato com os líderes desses colaboradores, promover uma participação do médico da medicina do trabalho – que foi um suporte grande nesse momento, como também a ajuda de especialistas e psicólogos. Então o RH teve de ter uma atenção especial nesse aspecto socioemocional. E um segundo ponto que impactou bastante em todos nós na pandemia é que, além da vida, nos foi tirado a liberdade, nos foi cerceado o direito de ir e vir. Ficar em casa isolado sem possibilidade de contato com amigos, outros parentes, com avós, com pais, irmão, essa ausência de contato e isolamento também gerou impacto nas pessoas. A ausência de contato com colegas de trabalho gerou impacto. Esses são fatores que o RH encontrou e precisaram ser trabalhados de perto. Porque a parte técnica a gente consegue reestabelecer, a gente consegue manter. Mas os impactos socioemocionais aconteceram e ainda vamos levar um tempo para identificar todos os possíveis reflexos e as suas soluções.

No período pós-pandemia, é possível que algumas mudanças se mantenham nas organizações. Você acredita que esse cenário antecipou algumas tendências? O que você avalia que continuará existindo na rotina das empresas?

Sim, com certeza. Antecipou especialmente a questão do teletrabalho. Mas gosto de dizer que esse home office de agora não é o home office teletrabalho, é um home office de adaptação. A gente precisa avaliar mais como é a estrutura das pessoas em casa. Claro que a estrutura organizacional também sofreu impacto, as empresas estão reavaliando isso: como posso trabalhar melhor daqui para frente em um sistema de home office e presencial? Algumas questões de jornada de trabalho também estão sendo levantadas: será que eu preciso estar presencialmente cinco dias na empresa? Será que a empresa não funciona com parte em home office e parte presencial, com isso sendo um rodízio? Como é a qualidade de vida dessas pessoas? Como posso fazer com que isso se reverta em uma qualidade de trabalho também? Isso tudo também está sendo revisto.

Além de cuidar dos colaboradores, o profissional de RH também precisa ficar de olho na sua própria saúde em meio a todas essas transformações. Qual é a melhor forma de ter esse cuidado?

Realmente, somos profissionais como os outros, a gente até brinca: estamos cuidando de todo mundo e quem cuida de nós? A gente sente muito isso. É um pouco o que podemos associar ao profissional da saúde, que cuida de todos. E quem cuida deles? Estão se desdobrando na linha de frente da pandemia. E o RH está na linha de frente das empresas. Então temos que ter um olhar atento a nós mesmos. Cuidar da saúde física e também mental. Por que o que aconteceu? Tivemos que rapidamente buscar soluções e tranquilidade para os gestores da empresa, o CEO, os diretores. E também tivemos que buscar conhecimento porque não tínhamos naquele momento nenhuma ideia de qual seria a extensão da pandemia. Os profissionais de RH estão o tempo todo trabalhando competências individuais e técnicas, e nas competências individuais cada pessoa reage de um jeito. Então precisamos também ser cuidados e costumo dizer que nosso cuidado é de vez em quando fazer uma autorreflexão, de vez em quando buscar uma ajuda com nossos pares. Acho que nossos pares também precisam dividir isso com a gente.