[Entrevista]: O desenvolvimento passa pela transformação do ensino - Blog do RH
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[Entrevista]: O desenvolvimento passa pela transformação do ensino

“Aceitaremos esse complexo desafio, ou continuaremos a contribuir para a manutenção de práticas antiéticas?”

Referência quando o assunto é pedagogia moderna, o português José Pacheco é um dos principais críticos do sistema educacional brasileiro – seja ele aplicado em escolas ou em universidades. O educador acredita que o método de ensino implementado atualmente deixa de lado as competências-chaves do século XXI, o que impacta também no mercado de trabalho, pois forma profissionais menos produtivos e criativos.

Na visão de Pacheco, é urgente realizar a reconfiguração de práticas escolares. “Temos alunos do século XXI sendo ensinados por professores do século XX, com recursos e práticas do século XIX”. Confira a seguir uma entrevista exclusiva com o fundador da Escola da Ponte, que é uma das instituições integrantes do chamado Movimento da Escola Moderna, onde o protagonismo do ensino é dado ao aluno. 

No geral, o senhor tem várias críticas à forma como o Brasil desenvolve seu projeto educacional nas escolas. O que teria de ser mudado nessa temática com urgência?

As escolas carecem de espaços de aprendizagem, de espaços de convivência reflexiva. Sejamos esperançosos. O Brasil dispõe de bons teóricos, de excelentes educadores, de projetos com potencial inovador. Assisto ao surgimento de projetos geradores de espaços de convivência reflexiva de que as escolas carecem. Vejo ainda o cuidar da pessoa do professor, para que ele se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores e alunos como pessoas.

E quanto às universidades, o projeto educacional do ensino superior também deveria passar por certas transformações, visto que muitos profissionais se formam sem efetivamente aprender muita coisa?

Creio que a universidade brasileira deveria conhecer e levar em consideração o depoimento de Agostinho da Silva perante a Comissão Parlamentar de Inquérito, que tinha por missão investigar a estrutura do sistema de ensino superior brasileiro. O depoimento data de 1968! Isso mesmo, a universidade brasileira tem meio século de defasagem relativamente ao desenvolvimento das ciências da educação.

As falhas do sistema educacional brasileiro certamente impactam no mercado de trabalho. O brasileiro seria um profissional melhor e mais produtivo se tivesse uma educação mais eficiente?

Reflitamos sobre competências-chaves do século XXI: interagir em grupos heterogêneos da sociedade, agir com autonomia, usar ferramentas interativamente, competências que, dificilmente, o modelo de ensino convencional reproduzido em “sala de aula” logra desenvolver. Salvaguardado o bom serviço prestado por algumas instituições de formação profissional, a proverbial criatividade brasileira não consegue apagar a incompetência do setor produtivo e a ineficiência administrativa do serviço público. Porque as escolas se mantêm cativas do modelo educacional herdado da Primeira Revolução Industrial. Temos alunos do século XXI sendo ensinados por professores do século XX, com recursos e práticas do século XIX. É inadmissível que, num dos estados da federação, em cada 100 alunos que completam o ensino médio, apenas um detenha um índice de proficiência aceitável.

Em um mercado cada vez mais competitivo e tecnológico, as pessoas também vêm desenvolvendo muitas expectativas e ansiedades. Como o profissional pode lidar com essas pressões?

O processo de autoconhecimento harmoniza-se com necessidades e problemas da sociedade contemporânea e do planeta. Tendo em consideração os objetivos de desenvolvimento sustentável e as dimensões da sustentabilidade, deverão ser desenvolvidas habilidades socioemocionais, assegurando, através do desenvolvimento de competências transversais, o pleno desenvolvimento pessoal e social do ser humano. Porém, se no domínio do desenvolvimento cognitivo a situação é deplorável, no domínio do desenvolvimento socioemocional, poderemos afirmar que atitudes negativas são interiorizadas ao longo de anos de estímulo a uma competitividade negativa. As escolas deverão desenvolver um currículo adequado às novas competências e exigências do século XXI.

As mudanças no sistema educacional passam pelos professores. Quais os desafios para quem optar por essa carreira nas escolas e nas universidades?

É urgente realizar a reconfiguração de práticas escolares, através do desenvolvimento de novas competências profissionais, bem como criar condições de reelaboração da cultura pessoal e profissional. Basta que professores competentes decidam ser éticos, isto é, que decidam criar condições de a todos garantir o direito à educação.

As novas tecnologias são aliadas de um bom projeto educacional?

Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias, que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consumam, sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais. A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais, ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola? É evidente. As novas tecnologias são incontornáveis. A Internet não é uma ferramenta; é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com as novas tecnologias. É certo que as escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. O modo como as escolas utilizam a Internet fomenta imbecilidade e solidão.

O senhor é referência principalmente pelo trabalho desenvolvido na Escola da Ponte. O que esse modelo pedagógico nos ensina?

Há mais de quarenta anos, a Escola da Ponte (uma escola da rede pública) provou a possibilidade de se romper com o ciclo vicioso da reprodução da ignorância, conseguiu que uma maioria de alunos oriundos da pobreza alcançasse a excelência acadêmica e a inclusão social. O seu projeto não deve ser replicado, mas a Ponte deverá constituir fonte de inspiração. O papel essencial será o da criação de condições de reelaboração da cultura pessoal e profissional dos educadores. Isso compete a uma formação, que, ainda e infelizmente, peca por defeito. Estou a falar de projetos que produzem excelência acadêmica e inclusão social e onde não há organização por idades. Onde as escolas não têm banheiro do aluno separado do banheiro do professor, onde não há aulas, nem outros dispositivos pedagógicos sem sentido, sem fundamentação científica. Na Escola da Ponte foi concebida uma nova construção social de aprendizagem, onde todos aprendem e são felizes. É isso que a Ponte nos ensina. Afirma a possibilidade de uma educação de boa qualidade.

Enquanto os sistemas educacionais não evoluem, como os alunos e os profissionais podem encontrar formas de aprender mais e melhor?

Sendo a educação considerada como ato ou efeito de educar, de aperfeiçoar habilidades, competências, o educador será o ser humano que ajuda outro ser humano a educar-se. O saudoso Darcy Ribeiro dizia que somos uma sociedade com seu nervo ético rompido. E como resolveremos o dilema? Demonstraremos seriedade nas intenções e nos gestos, propiciando condições para que as práticas escolares estejam em sintonia com necessidades e competências do mundo contemporâneo? Aceitaremos esse complexo desafio, ou continuaremos a contribuir para a manutenção de práticas antiéticas?