[Entrevista]: Marcos Piangers fala sobre ambientes criativos e tecnológicos - Blog do RH
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[Entrevista]: Marcos Piangers fala sobre ambientes criativos e tecnológicos

Momentos de crise e incerteza são propícios para inovar?

No mundo corporativo de Marcos Piangers, não há mais espaço para extensas reuniões, a automatização de processos manuais é um caminho sem volta e funcionários criativos são peças fundamentais para o sucesso das organizações.

Após mais de 100 palestras em 2016, duas vezes no TEDx, milhões de visualizações no Youtube e 5 milhões de ouvintes como um dos apresentadores do programa de rádio Pretinho Básico, fenômeno de audiência e premiado pela Apple, Piangers tornou-se um especialista em tecnologia e inovação no mundo dos negócios. Aos 35 anos, ele é responsável pela inovação das rádios do Grupo RBS e coordena a área digital, de vídeo, branded content e impressos da Rádio Atlântida. Confira entrevista exclusiva com o comunicador:

As suas palestras propõem uma observação sobre o futuro, mostrando práticas de inovação e tecnologia em um mundo cada vez mais conectado e onde surgem novos produtos e serviços a todo momento. Na sua opinião, as empresas não estão vendo ou não querem enxergar essas oportunidades?

Por um lado, muitas empresas não querem enxergar e assumem a sua incapacidade de adaptação. Portanto, focam em uma espécie de autoengano. Outras empresas, de fato, não enxergam. São aquelas organizações ultrapassadas, que ficam se perguntando de onde vem aquela transformação que elas não conseguem ver. Ao não enxergar as mudanças, a gente continua na nossa zona de conforto. Temos capacidade de se enganar, e é isso que acontece em muitas mesas diretoras de empresas, onde aqueles diretores que estão ali, muito bem pagos, simplesmente se enganando, querendo dizer que os negócios não vão bem por uma ou outro motivo que não a inoperância e a incapacidade de adaptação que essas empresas têm.

É importante dizer que é muito difícil, quando você ganha milhões ou bilhões, você ter essa capacidade de enxergar um futuro que a sua empresa não existe mais . As pessoas costumam acreditar que foram bem sucedidas uma vez e vão continuar sempre. E essa capacidade de adaptação é, sem dúvida, a capacidade mais necessária nesse período de constante mudança e brutal disrupção que tantas indústrias passam.

De que forma você busca colocar em prática a inovação e a tecnologia relatada nas suas palestras?

Há cinco anos eu cuido das áreas digitais da Rádio Atlântida e de inovação – que é tudo aquilo que não é rádio, propriamente dito, tudo aquilo que não é antena de transmissão radiofônica. Nesses cinco anos a gente criou a área de assuntos proprietários, a área de redes sociais, games, aplicativos, branded content, vídeos, licenciamentos e até uma área de impressos. Nosso objetivo com essas áreas é transformar a Atlântida em uma espécie de startup, que tem a capacidade de ter ideias e implementá-las de forma rápida. Isso inclui melhorá-las quando elas não estão perfeitas e a maioria das ideias não são perfeitas. É validar, testar constantemente, prototipar, e perceber aquilo que funciona e continuar, e aquilo que não funciona ser descontinuado.

A gente tem feito isso nos últimos cinco anos e o resultado é que a gente fechou 2016 crescendo mais de 20% no digital, crescendo no faturamento: o digital das rádios já fatura R$ 5 milhões. Crescemos em faturamento cruzado, que a gente chama de crossmedia, com patrocinadores pagando mais para ter esse aproveitamento em redes sociais e aplicativos e canais proprietários. E temos também crescimento na audiência do rádio, o que é incrível, por que as pessoas costumam achar que a audiência vai migrar do rádio para o digital. E a gente também achava isso. Mas o que percebemos é que o digital fortalece a audiência de rádio, porque percebe outros pontos de contato no digital. É algo realmente surpreendente, fechamos 2016 como o único pilar do Grupo RBS com crescimento estrondoso e que comprova que uma empresa de mídia pode se reinventar, continuar vibrante e entregar resultados e ter equipes motivadas e inovadoras.

É difícil ser um profissional inovador?

É difícil se o ambiente não é convidativo. Na Atlântida a gente desenvolveu métodos para que todos pudessem contribuir e se sentir parte do propósito. A gente tem um tripé para manter equipes motivadas, que é a autonomia, domínio e propósito. A autonomia é a capacidade de você permitir que os seus funcionários trabalhem no horário produtivo e tenham autonomia para tocar projetos paralelos, e além disso terem momentos de ócio ou inspiração. Domínio é a sensação de estar sempre aprendendo. Vez ou outra a gente modifica colaboradores de área, coloca de um lado para o outro, para que eles aprendam mais e saibam mais sobre outras áreas. E consequentemente eles estão sempre motivados em termo de aprendizado. E propósito é a sensação de que a gente está junto em uma missão, e essa missão é muito clara e as pessoas que estão com a gente estão fazendo algo maior que eles mesmo. E é algo que eles não conseguiriam fazer sozinhos.

Quando você percebeu que era o momento certo para abrir os olhos das organizações e mostrar o caminho da inovação?

Desde que entrei na RBS eu apresento novos caminhos para a empresa. Me formei na faculdade em 2002, mas em 1999 eu trabalhava com internet, junto com ótimos profissionais, que depois foram para o Vale do Silício. Essas pessoas foram uma introdução ao que seria uma revolução na comunicação. Em 2001, quando entrei na RBS, fui a primeira pessoa a propor um blog para a empresa, que não sabia nem o que era blog. Depois disso, em 2008, fui o primeiro produto de mídia da RBS ser colocado no YouTube, um canal com 12 milhões de views, que se chamava Kzuka TV.

Fui o primeiro cara a dizer que o Twitter era importante para o jornalismo, o primeiro a utilizar o Youtube como um parceiro de tecnologia, o primeiro a defender o Facebook como uma boa forma de gerar tráfego para nossos sites. Sempre defendi as lives para vender projetos casados para empresas que já patrocinava a rádio e poderiam ter aproveitamento visual com as lives de Youtube e Facebook. Na verdade, estou lá há muito anos ajudando a empresa a abrir os olhos para novas tecnologias. E acho que toda empresa deveria ter uma pessoa assim, em todas as áreas.

Em que momento inovar pode ser vista como um problema para as empresas? As organizações mais conservadoras conseguem explorar esse caminho?

Inovar é um problema. Se você quer eficiência, você pode contratar um monte de robô, porque robô é automatizado e certamente vai fazer um trabalho melhor que o ser humano. Isso se você for dono de uma empresa que não é criativa, não é inovadora e não tem equipes motivadas. O robô não precisa de motivação, não precisa de palestras motivacionais, de participação nos resultados, muito menos de salário, décimo terceiro, de dia da família e plaquinha na parede. Se você está focado em eficiência, pode contratar a automação, porque hoje em dia todas as áreas são automatizadas e você vai ter eficiência.

Mas o que eu gosto de citar é que todas as empresas que simplesmente focaram em automação foram ultrapassadas por outras empresas que investiam em equipes criativas, implementação de ideias e lançamentos de novos produtos. Um robô nunca vai pensar em um produto novo, nunca vai pensar em construir um carro, um aparelho. Ele nunca inovar, criar uma coisa nova. O que a gente vê hoje é a capacidade tecnológica sendo democratizada e entregando poder na mão de pessoas comuns, que através da ferramenta tecnológica e da criatividade inovadora, conseguem entregar novas soluções para problemas antigos. Então, as organizações mais conservadoras vão focar o faturamento de hoje, sem se preocupar com o futuro. E o futuro vem e ele é implacável.

Qual a influência da tecnologia na estrutura das empresas? Elas estão aproveitando corretamente os benefícios do mundo digital?

A maioria das empresas não percebe o mundo digital como aliado. Elas têm medo, não percebem que as companhias de tecnologia são parceiras. Percebo muita gente desconfiada com Google, Facebook, Amazon e Apple, sem abraçar as oportunidades de comunicação, de tecnologia e de distribuição. Acredito que quanto mais você estiver aberto para a tecnologia, mais você experimentar, investir naquilo que no futuro pode ser o seu ganha pão, melhor você estará preparado. Netflix, por exemplo. Eles começaram ganhando dinheiro com aluguel de DVD. Quando perceberam que o futuro era o streaming, inverteram a lógica: primeiro vinha o streaming e depois o DVD. Tiveram queda no faturamento. Mas eles estavam se preparando, pensando em um faturamento a longo prazo, e hoje são referência quando o assunto é produção de conteúdo. Em horários de pico, a Netflix representa ¾ da internet norte-americana. É um número absurdo. 

Com tantas facilidades e benefícios, a tecnologia está nos deixando menos criativos?

Eu sou otimista e acredito que não. Quanto mais informação e ferramentas você colocar nas mãos de uma criança, mais criativas elas vão ser e mais oportunidades elas vão criar. Lembrando que a gente não precisa de muitas pessoas criativas. A gente só precisou de uma para pensar no carro, uma pessoa para pensar na energia elétrica, uma pessoa para pensar na teoria da relatividade. Não foi preciso um grupo ou milhões de pessoas para pensar nesses conceitos revolucionários.

De que forma a tecnologia vem mudando as relações entre empresas e funcionários?

Gosto muito dos estudos que mostram que reuniões deveriam ser mais curtas e que a gente faz reuniões mais produtivas quando está caminhando. Isso ressignifica o papel do escritório na vida das empresas. E a gente tem, pela primeira vez, uma oportunidade de discutir, rediscutir, redesenhar a sociedade, e sem dúvida, as empresas e a relação com os funcionários vai passar por isso. Se você analisar, as empresas mais criativas, as melhores para se trabalhar no mundo está redesenhando o escritório, o local onde as pessoas trabalham.

Na Atlântida, buscamos fazer reuniões curtas, respeitamos a autonomia. Entendemos que em uma reunião tem pessoas que estão menos criativas, algumas não pensam muito bem de manhã, outras não pensam muito à tarde. A gente incentiva todos a darem sugestões e colocarem no nosso quadro de ideias. Quando temos algum problema, vamos até o quadro e tentamos juntar uma ideia com a outra e assim criar um novo produto. Steve Jobs dizia que criatividade é juntar os pontos. Isso é mais eficiente que juntar todo mundo em uma sala cinza, e fazer com que todo mundo pense em ideias num mesmo momento e com toda a hierarquia construída dentro de uma empresa.

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Em um cenário cada vez mais competitivo, como as empresas podem se destacar e continuar conquistando novos negócios?

Realmente, o cenário está bem competitivo. Eu incentivo as empresas a estarem pensando no dia de hoje, na eficiência atual e buscando automatizar trabalhos braçais, utilizando seus funcionários para serem humanos, criando e tendo um relacionamento com os seus clientes. Sou super a favor da automatização, da robótica, do algoritmo, mas para que os humanos possam fazer o que os humanos fazem de melhor. E certamente não é preencher planilhas de Excel, fazer reuniões em locais distantes, gastando recursos, mas sim pensando em novas formas de atender melhor e criar novos produtos para ser competitivo no futuro.

Momentos de crise e incerteza são propícios para inovar?

O principal é você inovar antes dos momentos de crise. Quando as empresas estão muito bem, ganhando muito dinheiro, essas empresas tendem a não se preparar para os momentos de crise. E o que é se preparar? É justamente perceber nas ferramentas tecnológicas a capacidade de entregar novas soluções para problemas antigos, entregar soluções melhores do que a sua empresa entrega hoje para problemas que a sua empresa se propõe a resolver. Se você está na indústria da mobilidade urbana, você tinha que estar se preparando antes da crise para essa realidade em que o compartilhamento de carros é uma tendência. Sempre olhar para uma tecnologia e se perguntar se ela poderia entregar uma solução melhor para um problema antigo que você se propõe a resolver. Se a sua empresa tem essa cultura de reinvenção, de readaptação, você consegue se preparar para o futuro.

Dou o exemplo da IBM, que era uma empresa de hardware, se transformou em uma empresa de software, e hoje em dia é uma empresa de serviços, com mais de 300 mil funcionários e, mesmo assim, consegue se reinventar. Algumas não tiveram essa percepção, como a BlackBerry, Kodak, a própria Microsoft. É um desafio você se preparar para a crise, lembrando que esse momento é onde o cliente é empurrado para optar entre a melhor opção, aquela que está mais alinhada com a modernidade. Ano de crise é onde você cancela o seu plano de telefonia e fica só usando o WhatsApp, encerra o seu plano de televisão por assinatura e assiste só Netflix e pode até vender o seu carro para se locomover com o Uber. Ano de crise é onde você opta por uma solução mais econômica e conveniente e mais alinhada com a modernidade.

Como vamos estar daqui a 10 anos?

Vamos lá. Em 2027, a gente vai ter empresas estabelecidas e monopólios hegemônicos, em termos de tecnologia. Acredito que a Amazon cresce com muita força na área de conteúdo e venda de produtos. Eles estão se preparando para o futuro, produzindo conteúdo não para vender conteúdo, mas para vender toalha, por exemplo. Eles estão pensando na loja do futuro, na casa do futuro, estão pensando em uma loja que não tem caixa, onde você pega os produtos e sai e automaticamente ele já percebe todas as compras que você fez. Isso é revolucionário.

Vamos ver também o carro autônomo. Daqui dez anos, certamente, a gente já vai ter carros andando sozinhos nas ruas. A gente vai ter uma internet mais rápida e abrangente, estando em todos os lugares e dando muita potencialidade para a interação. Não necessariamente pelo celular, acredito mais na interação por voz. Vejo que a interação vai ser muito mais orgânica do que é hoje, a gente tem interação primitiva: se você olha e-mail, Facebook, a forma como a gente ainda usa o teclado, ou mouse, são formas arcaicas e primitivas e daqui dez anos acredito que será mais natural.

Seus textos no jornal e seus livros fazem sucesso ao mostrar as descobertas e vivências de ser pai. Qual a melhor forma de conciliar a vida familiar com a vida profissional?

Tem que ter planejamento. É muito comum você ver uma organização de reuniões, em calendários e planilhas de Excel no ambiente profissional, mas pouquíssimas pessoas fazem isso no ambiente familiar. O que eu fiz foi reorganizar todas as minhas funções familiares e dar importância para aquilo que eu achava importante para as minhas filhas. Para isso, precisei excluir da minha vida profissional reuniões muito longas, em horários complicados e que eu estaria com elas. Parei de olhar o e-mail toda hora no celular e de responder o WhatsApp a todo momento. Eu tenho um período fixo no dia que eu respondo mensagens e normalmente é depois que elas dormem. Aí eu consigo jantar com elas, brincar com elas, botar elas para dormir, estar de verdade com elas, olhando para elas, respeitando minhas filhas e minha esposa. Quando elas dormem, aí sim eu vou para frente do computador, responder e-mails e resolver todas as questões do dia. É bom porque de madrugada ninguém vai responder imediatamente e faz com que você tenha um senso de realização no fim do dia.

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