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[Entrevista]: No enlace da revolução digital

Estamos em plena revolução digital?

Martha Gabriel, uma referência em inovação e uma das principais pensadoras digitais no Brasil, costuma dizer que toda revolução cria o melhor e o pior dos mundos. Ocorre que a Revolução Digital acontece de forma muito rápida, ou em velocidade exponencial, para usar um termo mais apropriado ao fenômeno. “Essa revolução traz muitas coisas que podem melhorar a nossa vida, mas também muita reestruturação que a gente tem que correr atrás para dar conta”, diz Martha, em um tom de brincadeira. E essa revolução, garante, está em andamento e não tem prazo para terminar.

Rankeada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela ProXXIma e entre os Top 50 Marketing Bloggers mais influentes do mundo pelo KRED, Martha revela na entrevista a seguir alguns fenômenos do atual (e futuro) cenário tecnológico e como empresas e organizações estão se adequando a eles.

ENTÃO ESTAMOS EM PLENA REVOLUÇÃO DIGITAL?

Sim, e esse é um caminho sem volta. A penetração das tecnologias digitais na sociedade tem causado transformações profundas no mercado em todas as suas dimensões: comportamento do consumidor, concorrência, canais, mídias, plataformas, recursos, barreiras de entrada, modelos de negócios, entre outras. Nesse cenário, empresas que conseguem aproveitar o potencial que o digital oferece têm obtido resultados exponenciais. A tecnologia está permeando a nossa existência. A quem almeja sucesso em qualquer área, recomendo que conheça muito bem e seja expert na tecnologia, com todas as suas forças e coração, e use-a para alavancar as suas ações nessa área. Porém, mesmo com tantas transformações, a tecnologia não muda o mundo, é o ser humano que muda o mundo usando a tecnologia. Ao mesmo tempo em que a tecnologia é encantadora, traz possibilidades fantásticas, ela também traz ameaças enormes para aquilo que já está estabelecido. Toda revolução é assim, só que essa tem sido muito mais rápida. E toda revolução é o melhor e o pior dos mundos…

NO SEU LIVRO “EDUC@R: A (R)EVOLUÇÃO DIGITAL NA EDUCAÇÃO” VOCÊ DISCUTE ESSAS QUESTÕES COM FOCO EXCLUSIVO NA EDUCAÇÃO. COMO ELA TEM SIDO TRATADA NO MEIO DISSO TUDO?

O futuro da educação será totalmente diferente do que se vê na maioria das escolas hoje. Será preciso mudanças de métodos, com mais diálogos, mais reflexão e menos conteúdo. Por exemplo, a Google e outros grandes players de tecnologia não estão exigindo mais diploma universitário como requisito para contratação. O que eles querem são pessoas que consigam ter as habilidades que eles precisam, independente de onde e de como essas pessoas adquiriram essas habilidades. Já há escolas nos Estados Unidos e no Canadá em que os alunos vão para casa e estudam na plataforma online da escola. E essa própria plataforma analisa onde os alunos estão com mais dificuldades ou o que eles já sabem fazer com mais facilidades. A plataforma analisa a classe inteira para que na próxima aula o professor já tenha uma aula modificada segundo as necessidades dos alunos, tudo assistido pela tecnologia. Então, algumas mudanças precisam ser feitas na educação, com foco total no aluno, nos interesses dele. Em vez de ficarmos repetindo fórmulas e solicitando que respondam a perguntas, temos que educar as crianças para que elas perguntem. O papel que questionar tem de ser delas, o pensamento crítico tem de partir delas.

A SENHORA COMENTOU, EM UMA ENTREVISTA RECENTE, QUE OS DISPOSITIVOS MÓVEIS SE TORNARAM A PRIMEIRA TELA NA VIDA DAS PESSOAS, NÃO MAIS A SEGUNDA (A DA TV). COMO ISSO INTERFERE NO COMPORTAMENTO SOCIAL?

Diante da televisão somos consumidores. Diante do celular, por exemplo, somos compartilhadores interativos. Hoje em dia você procura um restaurante não apenas pelo o que ele serve, pelo cardápio. Você quer um restaurante com conexão wi-fi, de preferência com garçons que saibam fotografar com qualquer tipo de dispositivo móvel. A mobilidade causou a dissolução da fronteira entre o mundo online e offline, permitindo que se esteja Always-On, causando uma disputa de relevância constante entre os mundos online e offline.

NA SUA AVALIAÇÃO, QUAL A SITUAÇÃO DO BRASIL EM TERMOS DE INFRAESTRUTURA PARA A MOBILIDADE EM RELAÇÃO AOS PAÍSES DESENVOLVIDOS?

Depende do lugar em que você está, porque no Brasil há vários Brasis. Há muitos lugares em que o wi-fi não funciona, e sem wi-fi não se consegue fazer integração nenhuma de on e off. Por outro lado, há lugares que estão exatamente igual a Nova York ou qualquer grande cidade da Europa. O que dificulta, às vezes, é que o Brasil não está na rota das principais relações. Há aparelhos que compramos nos Estados Unidos e que não podemos usar no Brasil porque aqui não há o aplicativo para baixar. Por exemplo, ainda não dá para instalar aqui no Brasil o Apple Pay, um sistema de pagamento móvel, uma carteira digital desenvolvida pela Apple. Em vários lugares do mundo, com o próprio celular você encosta e faz o pagamento, dispensando até o cartão de crédito. Seu lançamento nos Estados Unidos foi em 2014, e nós ainda não temos esse suporte aqui. Então essa integração com os grandes players fazem diferença. O 5G promete trazer diversas melhorias, inclusive conexão em lugares remotos, para quem faz aventuras em montanhas, por exemplo. Isso certamente irá melhorar nossa conexão.

COMO A SENHORA ACHA QUE A REVOLUÇÃO DIGITAL VAI INTERFERIR NA GESTÃO DE PESSOAS, CONSIDERANDO TENDÊNCIAS COMO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, POR EXEMPLO? NÃO SE CORRE O RISCO DOS RELACIONAMENTOS HUMANOS SE PERDEREM UM POUCO NESSE PROCESSO?

A Transformação Digital (TD) impacta todas as dimensões da educação corporativa: O QUE, QUANDO, COMO, ONDE e QUEM. Primeiro, ela modifica profundamente “O QUE” as pessoas precisam aprender para desenvolver uma mentalidade. Por exemplo, habilidades/capacidades como curiosidade, experimentação, pensamento crítico, agilidade, resiliência e colaboração estão na base da TD e precisam ganhar relevância no leque de educação corporativa. Segundo, a TD afeta “QUANDO” se educa/aprende, pois o ambiente digital, se bem projetado e utilizado, permite seu acesso “24/7”, oferecendo um recurso contínuo valioso para os colaboradores, em tempo real, sem limitações, para acesso ao conhecimento. Terceiro, a TD revoluciona “COMO” se educa/aprende – as tecnologias digitais afetam o modo como aprendemos, tamanho de conteúdos, fragmentação, acesso a rede de pessoas, networking. “ONDE” a educação/aprendizagem acontece é totalmente abalado também pela TD, pois o “lugar ideal” passou a ser um híbrido de espaço físico e digital. Esse tipo de ambiente tende a alavancar o potencial do capital humano, pois funciona como base para “O QUE”, “QUANDO” e “COMO” se aprende na corporação. O digital não tem (e tende a não respeitar) limites geográficos, permitindo e fomentando novas formas de educação a distância, colaboração, atuação. O aumento de complexidade causado pela TD em todas essas dimensões da educação corporativa impacta também o RH, ou seja, “QUEM” capitaneia o desenvolvimento humano dentro da organização – e que deve ser a primeira área a se transformar para disseminar o processo. Além da educação corporativa em si, o próprio trabalho do RH também se modifica, pois sistemas inteligentes de apoio à análise e desenvolvimento de competências humanas requerem novos perfis de profissionais, para não apenas saber utilizar esses sistemas, como também conseguir colaborar e se relacionar com as áreas de tecnologia para dar conta desse cenário multidisciplinar. Acredito que, paradoxalmente, quanto mais tecnologia tivermos para nos assistir, mais humanos e transparentes tendemos a nos tornar.