Como cuidar bem de quem cuida de todos

Com papel essencial na pandemia, o RH precisa estar com a saúde mental em dia.

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Tendo em vista que as pessoas são parte fundamental de qualquer empresa, o setor de Recursos Humanos (RH) ocupa uma função essencial em todas organizações. Na situação atual, em que o mundo enfrenta uma pandemia, o departamento se mostra ainda mais importante, sendo protagonista nas estratégias corporativas e nas questões que envolvem o bem-estar e a saúde das equipes.

Para conseguir cuidar bem dos outros, porém, é importante antes de mais nada olhar para si. O profissional de RH não deve ser muito duro consigo mesmo e nem se cobrar excessivamente. O momento é de incertezas e angústias para todos, o que abrange inclusive as pessoas que são responsáveis por essas temáticas. O cenário pede compaixão com os outros e consigo mesmo.

“Tudo depende da nossa atitude e das ações que adotamos”

A saúde mental dos profissionais, no geral, precisa ganhar uma atenção especial. “O equilíbrio emocional sempre é importante e nesta situação de pandemia se torna ainda mais relevante. Infelizmente, não é algo que se desenvolve de uma hora para outra. Um bom começo é aprender a focar a atenção no momento presente, observando o que está acontecendo aqui e agora, e aprendendo a aceitar o que não está no nosso controle. Momentos de crise, como esse que estamos vivendo, nos deixam abalados e com medo, o que contribui para piorar a situação”, destaca o psicólogo clínico Otelmo Eggers.

Uma maneira assertiva de lidar com cenários como esse é olhar para o futuro com curiosidade. Dessa forma, avalia Eggers, o medo e as expectativas ficam em segundo plano. “As pessoas gostam de viajar porque olham para os lugares que visitam com curiosidade e isto as faz sentir-se felizes.  Por isso, a curiosidade em relação ao que estamos vivendo no momento é uma estratégia que pode ser muito útil”, acredita.

No caso dos profissionais de RH, é primordial ainda que o setor compreenda que as pessoas que integram suas equipes são seres humanos, que também são afetados pelo medo e todas as demais consequências que as crises geram. Segundo Eggers, os momentos de crise podem levar à união do grupo ou a conflitos dentro do mesmo. “Tudo depende da nossa atitude e das ações que adotarmos para superar as dificuldades com que nos depararmos”.

“Primeiro a gente precisa estar bem para depois conseguir ajudar os outros”

O desenvolvimento de habilidades profissionais está acelerado durante a pandemia, visto que o mercado mudou radicalmente. Nesse sentido, uma das principais competências que está em foco é a tolerância. “Estamos tendo que ter tolerância com os outros, sabendo que nem tudo sai mais como a gente quer, e tolerância com a gente mesmo, sendo mais flexível e aceitando os ajustes de uma forma geral”, avalia a psicóloga, palestrante e consultora Helena Brochado.

No início da pandemia, o medo foi possivelmente a primeira emoção sentida por todos. Agora, pouco a pouco, outros sentimentos também estão ganhando espaço.

“De uma hora para outra, fomos arrancados da zona de conforto. A primeira emoção que a gente sente quando sai da zona de conforto é o medo. E o medo é uma emoção que nos pede proteção. Agora as pessoas estão saindo um pouco dessa fase e entrando na área de aprendizagem, que é onde conseguimos ver outras possibilidades, outras formas de desenvolvimento. A criatividade retorna para as pessoas. As pessoas estão buscando cursos de alto desenvolvimento para lidar com isso tudo. Dessa forma elas vão conseguir ajudar a si mesmas, em primeiro lugar, e isso não é egoísmo. Não é à toa que quando estamos em um avião a aeromoça diz: ‘Se houver despressurização, máscaras de oxigênio cairão. Coloque primeiro em si e depois coloque nos outros’. Primeiro a gente precisa estar bem para depois conseguir ajudar os outros”, explica Helena.

“Os bons pensamentos são a alavanca para a transformação”

Diante de um cenário de crise, umas das principais missões das empresas é buscar uma sintonia com as equipes. Isso é imprescindível não apenas para os resultados financeiros, mas também para o clima organizacional. “Neste momento de incertezas, precisamos ser apoiados por outras certezas. E a principal delas são as pessoas! Pessoas que estejam alinhadas com você e que possam construir uma rede de apoio. Aqui, mais do que nunca, entra o papel do líder e do RH. Os bons pensamentos são a alavanca para a transformação”, destaca a psicóloga Ana Paula Boscardim Baschera, diretora da Associação de Recursos Humanos de Bento Gonçalves/RS (ADRH).

O momento de pandemia pode potencializar, inclusive, a inovação em alguns aspectos. É possível desenvolver saídas criativas que nem sempre são buscadas em tempos de prosperidade. “Somos muito mais motivados pela dor do que pelo prazer. Uma crise nos dá a sensação de mudar ou morrer, e precisamos usar esse sentimento a nosso favor para assim buscarmos o equilíbrio emocional, se sentir fortalecidos, aumentar nossa coragem e determinação para mudar. Este é o combustível para a transformação”, acredita Ana Paula.

Ainda segundo a psicóloga, a positividade é um elemento-chave para lidar com surpresas e se adaptar melhor a elas. “Se tem alguém que pode lhe ensinar valiosas lições sobre ações e atitudes é você mesmo! Por isso, analise seu comportamento do passado, do presente e se projete para o futuro. Aprenda com seus erros, acertos e descubra que você já acabou utilizando a adaptabilidade muitas vezes e nem se deu conta”.

Saúde física também precisa de cuidados

Além dos cuidados com a mente, o momento atual pede uma atenção redobrada para a saúde física. Obedecendo a orientação de ficar em casa sempre que possível, muita gente deixou de ir até academias e parques, o que reduziu a movimentação do corpo. A prática de atividades físicas, vale destacar, não apenas melhora o sistema imunológico, como também libera hormônios como endorfina, dopamina e serotonina, que são responsáveis por gerar uma sensação de felicidade e bem-estar nas pessoas. A saúde mental, portanto, também é influenciada pelos exercícios.

Embora o momento atual seja especialmente indicado para manter o bem-estar mental e físico, o personal trainer Maurício Michelli ressalta que esse cuidado deve ser frequente. “Devemos ter o autocuidado com o nosso corpo e mente diariamente e preventivamente não só em momentos difíceis como agora. Prova disso é que a maioria das pessoas mais suscetíveis a doenças como a Covid-19 tem outras comorbidades que podem agravar o quadro em caso de contaminação”, explica.

Para nortear a rotina de quem busca manter uma rotina saudável, o equilíbrio deve ser a palavra-chave. “O nosso corpo e nossa mente já possuem uma tendência de manter esse equilíbrio, mas o estilo de vida atual de muitas pessoas – exageradamente sedentário, buscando ter o máximo conforto, procurando atalhos e remédios para emagrecer, para conseguir dormir e para ficar ‘sarado’ – está fazendo mal ao corpo e à mente”, avalia o personal trainer.

Dicas para iniciar uma rotina de atividades físicas

Confira a seguir algumas dicas citadas por Michelli para quem deseja iniciar uma rotina de atividades físicas após a pandemia:

  • Comece tirando um tempo para fazer algumas caminhadas sozinho. Experimente lugares diferentes para fazer isso, como na natureza;
  • Caso perceba que você está cansando facilmente, marque uma consulta com um médico de sua confiança;
  • Ao caminhar, se não conseguir relaxar a mente após alguns momentos a sós consigo, sugiro que procure ajuda de um psicólogo;

– Realizando esses primeiros passos, os próximos tendem a ser mais fáceis, como começar a treinar em uma academia (se possível com um personal trainer) ou mudar sua alimentação (de preferência com a ajuda de um nutricionista). No entanto, é preciso lembrar que deve haver equilíbrio até mesmo nisso, pois exercícios e dietas em excesso também podem vir a fazer mal à saúde.